Imagine, por um momento, você estar numa metrópole e acordar, de manhãzinha, com os primeiros raios de Sol a riscarem a fímbria do horizonte, tingindo, aos poucos, tudo de cor, ouvindo, extasiado, o canto mavioso do passaredo em festa que saúda, alegremente, o romper majestoso de um novo dia, sem a interrupção indesejada de buzinas de carro, roncos estridentes de motocicletas ou gritos pavorosos de aviões.
Isto seria, por certo, inimaginável, se não fosse a cristalina verdade.
No ano passado, fui passar o Natal, ao lado da família, em Fortaleza, hospedando-me na Francisco Xerez, uma rua tranquila, encravada no bairro Guararapes, a alguns quarteirões da Washington Soares, onde, percebe-se, de imediato, o pulsar forte da vida agitada da capital alencarina observando-se o fluxo constante das pessoas, que andam apressadas, imersas, pobrezinhas, no casulo insondável dos seus pensamentos, ou dos veículos automotores que transitam, velozes, pela avenida, parecendo mesmo aflitos, cada um não querendo perder a hora, buscando chegar a tempo ao seu destino, levando consigo as preocupações costumeiras dos donos, a que já estão bem acostumados.
Recordo-me que saí de Camocim no dia 23 de dezembro, por volta do meio dia, e, após uma cansativa viagem de ônibus, daquelas que somente um monge tibetano pode pacientemente aguentar, sem nada reclamar, cheguei à rodoviária central, em Fortaleza, às oito da noite, dirigindo-me, em seguida, ao apartamento do meu genro, Pedro Ivo, e da minha filha, Damaris, que me acolheram, gentilmente, como sempre, indo dormir ainda cedo, posto que a velhice teima em bater insistentemente à minha porta, não sei para que, buscando melhorar as dores terríveis da coluna, que me atormentavam, num sono reparador.
E assim aconteceu!
Como de costume, acordei às cinco da madrugada, agora, bem disposto, sem sentir dor alguma, levando os meus primeiros pensamentos para o Alto, numa humilde prece de gratidâo ao Criador pela dádiva da vida.
Enquanto mergulhava fundo no mar sereno da Divindade, refazendo as minhas forças interiores, clamando a ELE por proteção e sabedoria, eis que ouço o trinado inconfundível – e belo – de um bem-te-vi, que se postara, talvez para me alegrar, creio eu, numa roseira do jardim do prédio, cujo perfume, embalado pela brisa matinal, fazia-me retroceder no tempo, levando-me, num átimo, à casa de vovô Raimundo Anastácio e vovó Marieta, em Massapê, àquelas inesquecíveis manhãs da infância, tão risonhas, incensadas pelas flores brancas e pequeninas do Bogari.
E, abençoada surpresa, vi, para deleite meu, que outros bem-te-vis haviam se juntado camaradamente ao primeiro cantor, quem sabe a namorada dele e alguns amigos, aboletando-se, numa algazarra feliz, nos galhos retorcidos da planta, enchendo o balão do dia com seus acordes melodiosos característicos, que nem mesmo o grande maestro Zula, que passou, antes de mim, pelos bancos do seminário franciscano de Ipuarana, situado no platô da Borborema, em Campina Grande-PB, onde aprumou suas potentes asas para o voo de longo curso da música clássica, conseguiria reproduzir.
De posse de tudo aquilo que estava à minha volta, naquele momento grandioso em que a Mãe-Natureza resolvera se manisfestar em todo o seu esplendor, emocionado, chorei um riachinho de águas mansas, cálidas, que me conduziram aos verdes prados de uma indizível alegria.
Minutos depois da emoção que sentira, ciente, na minha pequenez, da sublimidade da criação divina, fiz um gesto largo de agradecimento aos bem-te-vis da Francisco Xerez, como se eu quisesse abraçar cada um deles, carinhosamente, desejando-lhes um Natal cheio de luz e de paz.
Por fim, à mesa, na sala de estar, recomposto por completo por um banho demorado, degustando um saboroso café da manhã, acompanhado de frutas, queijo de coalho, mel de jandaíra e torradas quentinhas, teci breves comentários, aos meus familiares, ancorado nos sábios ensinamentos do estoicismo, sobre como podemos ser felizes, no cotidiano, se observarmos com mais acuidade as pequenas coisas que nos rodeiam, que, por vezes, infelizmente, não as percebemos na sua essência, levados que somos, de roldão, na carruagem ligeira dos dias.
Revestidos pelo espírito natalino, naquela data memorável, meditamos, também, nas parábolas do Rabi de Nazaré, que nos ensina, com singeleza, com doçura, a semearmos o bem, pelas trilhas, inclusive aquelas ermas, enquanto aqui estivermos caminhando neste plano.
Que o Senhor, na sua infinita bondade, se compadeça de nós!
Imagine, por um momento, você estar numa metrópole e acordar, de manhãzinha, com os primeiros raios de Sol a riscarem a fímbria do horizonte, tingindo, aos poucos, tudo de cor, ouvindo, extasiado, o canto mavioso do passaredo em festa que saúda, alegremente, o romper majestoso de um novo dia, sem a interrupção indesejada de buzinas de carro, roncos estridentes de motocicletas ou gritos pavorosos de aviões.
Isto seria, por certo, inimaginável, se não fosse a cristalina verdade.
No ano passado, fui passar o Natal, ao lado da família, em Fortaleza, hospedando-me na Francisco Xerez, uma rua tranquila, encravada no bairro Guararapes, a alguns quarteirões da Washington Soares, onde, percebe-se, de imediato, o pulsar forte da vida agitada da capital alencarina observando-se o fluxo constante das pessoas, que andam apressadas, imersas, pobrezinhas, no casulo insondável dos seus pensamentos, ou dos veículos automotores que transitam, velozes, pela avenida, parecendo mesmo aflitos, cada um não querendo perder a hora, buscando chegar a tempo ao seu destino, levando consigo as preocupações costumeiras dos donos, a que já estão bem acostumados.
Recordo-me que saí de Camocim no dia 23 de dezembro, por volta do meio dia, e, após uma cansativa viagem de ônibus, daquelas que somente um monge tibetano pode pacientemente aguentar, sem nada reclamar, cheguei à rodoviária central, em Fortaleza, às oito da noite, dirigindo-me, em seguida, ao apartamento do meu genro, Pedro Ivo, e da minha filha, Damaris, que me acolheram, gentilmente, como sempre, indo dormir ainda cedo, posto que a velhice teima em bater insistentemente à minha porta, não sei para que, buscando melhorar as dores terríveis da coluna, que me atormentavam, num sono reparador.
E assim aconteceu!
Como de costume, acordei às cinco da madrugada, agora, bem disposto, sem sentir dor alguma, levando os meus primeiros pensamentos para o Alto, numa humilde prece de gratidâo ao Criador pela dádiva da vida.
Enquanto mergulhava fundo no mar sereno da Divindade, refazendo as minhas forças interiores, clamando a ELE por proteção e sabedoria, eis que ouço o trinado inconfundível – e belo – de um bem-te-vi, que se postara, talvez para me alegrar, creio eu, numa roseira do jardim do prédio, cujo perfume, embalado pela brisa matinal, fazia-me retroceder no tempo, levando-me, num átimo, à casa de vovô Raimundo Anastácio e vovó Marieta, em Massapê, àquelas inesquecíveis manhãs da infância, tão risonhas, incensadas pelas flores brancas e pequeninas do Bogari.
E, abençoada surpresa, vi, para deleite meu, que outros bem-te-vis haviam se juntado camaradamente ao primeiro cantor, quem sabe a namorada dele e alguns amigos, aboletando-se, numa algazarra feliz, nos galhos retorcidos da planta, enchendo o balão do dia com seus acordes melodiosos característicos, que nem mesmo o grande maestro Zula, que passou, antes de mim, pelos bancos do seminário franciscano de Ipuarana, situado no platô da Borborema, em Campina Grande-PB, onde aprumou suas potentes asas para o voo de longo curso da música clássica, conseguiria reproduzir.
De posse de tudo aquilo que estava à minha volta, naquele momento grandioso em que a Mãe-Natureza resolvera se manisfestar em todo o seu esplendor, emocionado, chorei um riachinho de águas mansas, cálidas, que me conduziram aos verdes prados de uma indizível alegria.
Minutos depois da emoção que sentira, ciente, na minha pequenez, da sublimidade da criação divina, fiz um gesto largo de agradecimento aos bem-te-vis da Francisco Xerez, como se eu quisesse abraçar cada um deles, carinhosamente, desejando-lhes um Natal cheio de luz e de paz.
Por fim, à mesa, na sala de estar, recomposto por completo por um banho demorado, degustando um saboroso café da manhã, acompanhado de frutas, queijo de coalho, mel de jandaíra e torradas quentinhas, teci breves comentários, aos meus familiares, ancorado nos sábios ensinamentos do estoicismo, sobre como podemos ser felizes, no cotidiano, se observarmos com mais acuidade as pequenas coisas que nos rodeiam, que, por vezes, infelizmente, não as percebemos na sua essência, levados que somos, de roldão, na carruagem ligeira dos dias.
Revestidos pelo espírito natalino, naquela data memorável, meditamos, também, nas parábolas do Rabi de Nazaré, que nos ensina, com singeleza, com doçura, a semearmos o bem, pelas trilhas, inclusive aquelas ermas, enquanto aqui estivermos caminhando neste plano.
Que o Senhor, na sua infinita bondade, se compadeça de nós!
*Professor e Escritor Camocinense





